Oficina de textos do Bruno Garcia
A neurose continua!!!
Senhoras e senhores, desconfiem até do Papa!
Antes de mais nada os sinceros pedidos de desculpa pelo atraso de duas semanas na coluna Timor escreve. Alguns problemas tomaram todo o meu tempo, e não tive outra escolha senão deixar a coluna de lado. Mas aqui estou eu com o fôlego renovado.
Na última coluna falamos sobre a mania de informação total e em tempo real que assola a sociedade. As pessoas tornam-se compulsivas e a chamada informação volátil começa a ser associada a informação realmente importante. Mas não retornaremos ao mérito da coluna passada. Hoje falaremos sobre a informação em si, seus perigos e suas artimanhas.
Falar da mania de informação nos obriga a falar de jornalismo por tabela. Na atual conjuntura, até que ponto podemos realmente confiar na informação que é passada pela mídia? Até que ponto podemos acreditar que o jornalismo, a publicidade, assim como qualquer outro meio de comunicação, estabelece uma mensagem sem distorções? Na publicidade nem tanto, afinal seu objetivo maior é mesmo convencer o grande público. Mas no jornalismo, tem-se a falsa idéia de que a profissão estaria acima da sociedade, como uma entidade divina, e que a partir daí poderia sem problemas informar com objetividade e imparcialidade toda a realidade dos fatos.
O primeiro erro está na inabalável crença de que o sistema é sério e a prova de falhas. As pessoas de um modo geral acreditam nisso, mesmo quando em seus próprios complexos sociais o sistema vigente não é respeitado. No que diz respeito ao jornalismo, observamos que há uma ingenuidade muito grande, por parte da maioria esmagadora da população, que acredita piamente em tudo que é passado pelos meios de comunicação, sem ao menos pestanejar. Em nenhum momento, passa pela cabeça destas pessoas que a informação possa estar sendo manipulada, que a informação não cai do céu: ela é trabalhada por um número imenso de pessoas, até chegar em seu formato final, e somente aí, ser distribuída. E o problema estaria aonde, no emissor ou no canal? E mais, será que existe realmente esta diferença: emissor e canal? A partir do momento que consideramos que o emissor controla o canal, realmente não faz a menor diferença. Mas se acreditamos que o emissor é a realidade em si, então o problema está no canal que cria vias alternativas para esta realidade.
O jornal é uma instituição como qualquer outra, uma instituição que precisa sobreviver dentro de uma sociedade. E aí encontra-se o grande dilema do jornalismo: estando imerso por completo numa sociedade, como fazer para tratar desta sociedade sem distorções, sem o jogo de interesses? Como sair desta ciranda? Saindo da sociedade, haha. Não deveríamos considerar isso algo tão absurdo, afinal, fazemos isto o tempo todo. Ah, mas estes intelectuais do caralho, como já definiu bem Dercy, sempre culpando o sistema por isso ou aquilo. Não meus amigos, não é o sistema não! Nós manipulamos a informação para todos os fins. É algo inevitável quando convivemos com o próximo. A diferença está no grau de extensão e complexidade desta manipulação. Você pode esconder algum fato de seu filho, ou você pode escrever para a CNN Internacional e esconder um fato de meio mundo. Nem tocaria aqui em questões como a objetividade e o profissionalismo como castradores, digamos assim, do potencial natural que todo jornalista deveria ter para buscar a verdade sobre determinado assunto e informar toda sociedade a respeito. O fato de tratar a informação de maneira objetiva ou não, em nada interfere numa possível manipulação.
Ohh, Timor, então o que poderíamos fazer para protegermo-nos disso, nós pobres leitores, sem a maldade e malícia necessária para separar o joio do trigo? A ordem do dia é a desconfiança, o olhar crítico ao extremo, quase caindo na teoria da conspiração, mas sem acreditar no que aparece em Arquivo X. Este gigantesco macaréu de informação, que já é peneirado e transformado em inúmeras etapas, deve passar por um último e imprescindível filtro: o seu. Do contrário somos levados por esta gigantesca onda, e ficamos a mercê da maré dos meios de massa. Acreditar facilmente em tudo é coisa de um ser que tem as orelhas compridas.
Num mundo dominado pela mania de informação total, saber distinguir informação relevante e informação volátil não é suficiente. Urge-se por olhar com "olhos de águia" para a informação relevante. E o mais importante de tudo: não ficar neurótico com isso. Do contrário você não vai acreditar nem mesmo na sua mãe.